• (Por Maria Antonia Gimenez Germano) •
Reumo
Este artigo desenvolve a tese central de que Paulo de Tarso, judeu helenizado de Tarso da Cilícia, operou uma substituição hermenêutica do judaísmo bíblico ao transferir a autoridade textual do Tanakh hebraico para a Septuaginta grega. O termo “anticristo” é aqui utilizado em seu sentido etimológico grego — antichristos (ἀντίχριστος) — onde anti (ἀντί) significa “em lugar de” e não meramente “contra”. Argumenta-se que Paulo não se opôs a YEHUOSHUA (יהושע) haNotzri, mas criou um Cristo grego (Χριστός) que substituiu o Messias hebreu das Escrituras. A análise percorre quatro eixos: (1) a divergência fundamental entre Tanakh e Septuaginta como matrizes textuais; (2) a ressignificação paulina de termos-chave — Torah/Nomos, Emunah/Pistis, Tsedaká/Dikaiosýne; (3) o método alegórico grego versus a hermenêutica hebraica (Peshat, Remez, Derash, Sod); (4) as implicações socioteológicas do Cristo grego para o antissemitismo histórico, a exclusão de minorias e o apagamento da práxis judaica de YEHUOSHUA (יהושע). Conclui-se que Paulo de Tarso, ao helenizar o evangelho, criou um substituto grego que se tornou a base do cristianismo paulino, distinto em natureza e conteúdo do movimento nazareno original.
PALAVRAS-CHAVE: Paulo de Tarso; Septuaginta; Anticristo Grego; Tanakh; Hermenêutica Hebraica; YEHUOSHUA (יהושע).
1. INTRODUÇÃO
A questão central que este artigo se propõe a investigar é a seguinte: em que medida a substituição hermenêutica do Tanakh hebraico pela Septuaginta grega, operada por Paulo de Tarso, constitui a criação de um “Cristo grego” que substitui o Mashiach hebreu? O termo “anticristo” é objeto de intenso debate teológico e, frequentemente, é relegado ao campo da escatologia fantástica ou da demonologia. No entanto, sua raiz grega anti (ἀντί) carrega o significado primário de “em lugar de”, “em substituição a”, ou “equivalente a”. Este artigo adota esta acepção técnica e filológica: Paulo não teria sido um opositor frontal da figura histórica de YEHUOSHUA (יהושע) haNotzri, mas teria, por meio de uma sofisticada operação textual, colocado um Cristo grego no lugar do Mashiach judeu.
Tal proposição encontra eco na crítica textual contemporânea — onde autores como Flusser (2007) já apontavam cisões fundamentais entre o Jesus histórico e o Cristo da fé paulina —, mas a originalidade desta investigação reside em demonstrar que essa substituição não é apenas teológica, mas essencialmente uma OPERAÇÃO TEXTUAL: a troca deliberada de matriz documental. A metodologia aqui empregada combina a análise filológica comparada entre o hebraico e o grego koiné, a crítica textual dos manuscritos disponíveis (LXX, Papiro 46, Códice Sinaiticus) e a historiografia crítica do Segundo Templo.
A tese que apresento é fruto de uma investigação exaustiva detalhada em minha obra de 1.109 páginas, onde a blindagem metodológica estabelece que a compreensão de YEHUOSHUA (יהושע) — grafado com as cinco letras sagradas: Yod-He-Vav-Shin-Ayin — é indissociável da matriz do Tanakh. Ao romper com esta matriz, Paulo não apenas traduz uma mensagem; ele transmuta a ontologia do Messias. O artigo estrutura-se em quatro seções que detalham essa transmutação, desde a divergência das matrizes até as consequências socioteológicas que moldaram o Ocidente.
2. TANAKH E SEPTUAGINTA: DUAS MATRIZES, DOIS MUNDOS
2.1 O Tanakh como Matriz Original
O Tanakh — acrônimo para Torah (תורה), Nevi’im (נביאים) e Ketuvim (כתובים) — representa a Escritura hebraica em sua língua original e em seu contexto cultural semítico. YEHUOSHUA (יהושע) haNotzri, conforme testemunham as camadas mais antigas da tradição sinótica e os achados arqueológicos em Cafarnaum e Magdala, era um judeu observante da Torah. Ele ensinava nas sinagogas e interpretava as Escrituras segundo os métodos hermenêuticos hebraicos de sua época. O termo “Evangelho” (הבשורה, besorá) que ele proclamava era o cumprimento das promessas proféticas do Tanakh, enraizado na terra, na genealogia e na aliança nacional de Israel. Para YEHUOSHUA (יהושע), a autoridade residia no texto hebraico e na tradição oral que o preservava.
2.2 A Septuaginta como Matriz Derivada e Expansiva
A Septuaginta (LXX), tradução grega do Tanakh iniciada em Alexandria no século III AEC, não é uma tradução neutra ou meramente linguística. Estudos comparativos rigorosos (Tov, 2015) demonstram que a LXX frequentemente interpreta o texto hebraico sob a influência do pensamento helenístico, introduzindo matizes teológicos e conceitos metafísicos ausentes no original. Manuscritos como o Papiro 967 e o Códice Vaticano atestam variantes significativas que alteram a percepção da escatologia e da lei. A LXX tornou-se a Bíblia dos judeus da Diáspora helenizada, mas, crucialmente, foi esta — e não o Tanakh hebraico — a matriz textual absoluta de Paulo de Tarso.
2.3 Paulo: Um Helenista na Encruzilhada
Embora Paulo declare-se “hebreu filho de hebreus”, sua formação em Tarso — um dos maiores centros do estoicismo e do platonismo médio — e seu domínio magistral do grego revelam uma identidade profundamente helenística. A análise estatística das citações paulinas é reveladora: das aproximadamente 80 citações diretas do “Antigo Testamento” nas cartas paulinas autênticas, mais de 70 seguem ipsis litteris a Septuaginta, inclusive nos pontos onde esta diverge drasticamente do Texto Massorético hebraico. Esta dependência exclusiva da LXX não é um detalhe técnico; é a chave da substituição hermenêutica. Paulo constrói sua teologia sobre as “falhas” e “interpretações” da tradução grega, criando um sistema que o Tanakh hebraico não autorizaria.
3. A RESSIGNIFICAÇÃO PAULINA DOS TERMOS FUNDAMENTAIS
3.1 Torah (תורה) → Nómos (νόμος)
No Tanakh, Torah significa “instrução”, “direcionamento” ou “ensinamento”. É um guia de vida que abrange todas as dimensões do ser. Em hebraico, a Torah é um dom, uma delícia. Paulo, ao traduzir Torah por nómos (νόμος) — termo grego que carrega o peso da norma jurídica e da regra impositiva —, opera uma inversão ontológica. Em Gálatas 3,10-13, Paulo transforma a Torah em um sistema de maldição e escravidão. Esta visão é estranha ao pensamento hebreu e ao próprio YEHUOSHUA (יהושע), que afirmou categoricamente não ter vindo para abolir a Torah. A substituição de “Instrução de Vida” por “Lei de Condenação” é o primeiro passo para a criação do Cristo que “liberta” de uma prisão que, no hebraico, nunca existiu.
3.2 Emunah (אמונה) → Pístis (πίστις)
Emunah em hebraico denota fidelidade ativa e firmeza relacional. É algo que se faz. Paulo reinterpreta o conceito como pístis (πίστις), que no contexto helenístico assume o caráter de assentimento intelectual ou crença metafísica. Ao citar Habacuque 2,4 (“o justo viverá pela sua fé”), Paulo remove o contexto de fidelidade à aliança e o substitui por uma aceitação dogmática da figura do Cristo grego. Para YEHUOSHUA (יהושע), a emunah produz obediência; para Paulo, a pístis torna a obediência à Torah obsoleta.
3.3 Tsedaká (צדקה) → Dikaiosýne (δικαιοσύνη)
Tsedaká é justiça social concreta: o ato de restaurar o equilíbrio na comunidade. Paulo a transforma em dikaiosýne (δικαιοσύνη), um termo do tribunal grego que remete a um status jurídico-forense imputado. A justiça deixa de ser uma prática de vida (práxis) para tornar-se um conceito teológico abstrato de “justificação”.
3.4 O Problema da Anomia (ἀνομία) em Mateus
É imperativo inserir aqui o entendimento de anomia (ἀνομία) presente no Sermão da Montanha (Mt 7,23). Embora o texto de Mateus tenha sido redigido em grego no final dos anos 90 EC, ele preserva uma tradição polêmica contra aqueles que praticam a “ilegalidade” ou “ausência de Torah”. Quando YEHUOSHUA (יהושע) diz “apartai-vos de mim, vós que praticais a anomia”, o alvo histórico-crítico provável são os seguidores da vertente paulina que, sob o pretexto da “graça”, descartaram a observância da Torah. Esta tensão textual em Mateus é a prova de que o movimento nazareno original identificava na teologia de Paulo uma ruptura perigosa com a ética do Mashiach hebreu.
3.5 Quadro Comparativo da Substituição
| Conceito Hebraico (Tanakh) | Substituição Paulina (Grego) | Efeito Teológico |
| Torah (Instrução/Vida) | Nómos (Lei/Condenação) | A Torah torna-se um fardo a ser removido |
| Emunah (Fidelidade Ativa) | Pístis (Crença Intelectual) | A salvação migra da conduta para o dogma |
| Tsedaká (Justiça Social) | Dikaiosýne (Justiça Forense) | A retidão torna-se um status abstrato |
| Mashiach (Rei/Libertador) | Christós (Divindade Soteriológica) | O Messias político torna-se um ícone grego |
4. HERMENÊUTICA HEBRAICA VERSUS ALEGORIA GREGA
4.1 Os Quatro Níveis da Interpretação Hebraica (PaRDeS)
A hermenêutica judaica opera no sistema PaRDeS: Peshat (literal), Remez (alusivo), Derash (homilético) e Sod (místico). YEHUOSHUA (יהושע) utilizava predominantemente o Peshat e o Derash, mantendo a interpretação ancorada na realidade histórica e na letra da Torah. Sua autoridade vinha da capacidade de radicalizar o sentido original, nunca de anulá-lo.
4.2 Paulo e o Método Alegórico Grego
Paulo, influenciado pela escola de Alexandria e pelo método de Filo, utiliza a alegoria grega para “espiritualizar” o texto hebraico até que ele diga o oposto do original. Em Gálatas 4,21-31, ele afirma explicitamente que a história de Sara e Agar “são coisas alegóricas” (ἅτινά ἐστιν ἀλληγορούμενα). Ao fazer isso, Paulo despoja o Tanakh de sua historicidade e de sua validade legal para Israel, transformando promessas nacionais em metáforas universais para uma nova religião helenizada. Onde o Tanakh diz “viva por estes mandamentos”, a alegoria paulina lê “estes mandamentos são sombras que devem desaparecer”.
5. IMPLICAÇÕES SOCIOTEOLÓGICAS DO “CRISTO GREGO”
5.1 A Ruptura com Israel e as Raízes do Antissemitismo
A substituição do Mashiach pelo Cristo grego forneceu a base para o supersessionismo (teoria da substituição). Se a Torah é “lei que mata”, então o povo que a guarda está “morto” ou “cego”. Esta retórica paulina foi o combustível para que os Pais da Igreja, como Justino Mártir e João Crisóstomo, desenvolvessem um antissemitismo teológico virulento que perdurou por milênios. O “Anticristo Grego” não é apenas uma figura textual; é uma força histórica que deslegitimou a existência judaica.
5.2 A Exclusão e a Hierarquia Patriarcal
O Cristo grego de Paulo reflete a ordem social do Império Romano e do estoicismo, não a liberdade profética de YEHUOSHUA (יהושע). Enquanto YEHUOSHUA (יהושע) incluía mulheres, pecadores e marginalizados em uma mesa de igualdade, as epístolas paulinas reintroduzem o silenciamento feminino e códigos domésticos greco-romanos de submissão. A helenização do evangelho foi também sua domesticação pelo status quo imperial.
6. CONCLUSÃO: O ANTICRISTO COMO SUBSTITUTO, NÃO COMO OPOSITOR
Este artigo demonstrou que Paulo de Tarso, ao substituir a matriz textual do Tanakh hebraico pela Septuaginta grega, criou um “Cristo grego” — um substituto hermenêutico que difere substancialmente do Mashiach que YEHUOSHUA (יהושע) haNotzri personificou. O termo “anticristo”, em seu sentido etimológico de “aquele que está em lugar de”, descreve com precisão cirúrgica essa operação: Paulo não foi um opositor de YEHUOSHUA (יהושע) no sentido de odiá-lo, mas foi o arquiteto de uma substituição que apagou o Jesus judeu em favor de uma divindade helenística palatável ao Império.
Reconhecer a distinção entre o YEHUOSHUA (יהושע) histórico e o Cristo paulino é um imperativo de honestidade historiográfica. O movimento dos Netzarim (Nazarenos) — judeus que seguiram YEHUOSHUA (יהושע) dentro da Torah e rejeitaram as inovações paulinas — representa a ponte perdida que precisamos reabilitar. A restauração da mensagem original de YEHUOSHUA (יהושע) exige o retorno à matriz do Tanakh e a denúncia da substituição operada pelo “Anticristo Grego”.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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FLUSSER, D. Judaism of the Second Temple Period. Vol. 2: The Jewish Sages and Their Literature. Grand Rapids: Eerdmans, 2009.
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GERMANO, M. A. G. Yehoshua é a Tanakh e Paulo é a Septuaginta — Paulo é o Anticristo Grego. 1. ed. [S.l.: s.n.], 2025. 1.109 p. ISBN 978-65-01-78064-1.
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VERMÈS, G. Jesus in His Jewish Context. Minneapolis: Fortress Press, 2003.
NOTA DA AUTORA: Este artigo é derivado da pesquisa que resultou no livro “Yehoshua é a Tanakh e Paulo é a Septuaginta — Paulo é o Anticristo Grego” (1ª ed., 2025, 1.109 pp., ISBN 978-65-01-78064-1), onde a tese é desenvolvida em profundidade com 40 capítulos de análise filológica, histórica e arqueológica.
Documento elaborado em 22 de junho de 2026.





